Análise 4
A retomada da dignidade do cidadão
O desemprego sem dúvida foi o maior fantasma dos anos 90 no mundo inteiro. A evolução da automação industrial e os processos de enxugamento da estrutura administrativa das grandes empresas provocou uma onda demissionária intensa.
Isso foi experimentado com mais intensidade especialmente nos países onde existiam os maiores salários do mundo, devido ao processo de globalização que transferiu atividades de menor valor agregado para países emergentes, deixando nos países desenvolvidos o alto escalão administrativo, o planejamento e a inovação, que possuem maior valor agregado. Num segundo estágio, grandes conglomerados estão transferindo tudo para países emergentes onde há mão-de-obra capaz de garantir bons resultados em pesquisa e desenvolvimento, casos específicos de alguns países da Ásia, liderados pela China e pela Índia.
O Brasil foi beneficiado nos anos 90 pela globalização especialmente no setor automotivo, onde grandes montadoras européias e asiáticas montaram fábricas locais, visando o mercado local e a exportação regional e até para a própria Europa e Estados Unidos. Porém, o índice de automação desses novos pólos industriais não gerava um volume de empregos proporcional ao valor investido, além dos salários destes empregos serem consideravelmente baixos. O setor de telecomunicações também passou por intensa expansão, na sua maior parte para atendimento ao mercado local.
Nos demais setores industriais, a crise da Era Collor, a hiperinflação e depois a onda de importados gerada pela paridade real/dólar provocou a retração intensa da atividade industrial, que aliada ao aumento da automação eliminou grande contingente de trabalhadores. Anos seguidos de baixo crescimento provocaram a ausência de novos investimentos e pólos de trabalho, deixando pelo menos 2 gerações com extrema dificuldade de colocar-se no mercado de trabalho.
Na agricultura, a expansão do agronegócio foi aliada à mecanização do campo, o que provocou a melhoria da qualidade dos empregos rurais porém a redução da demanda de mão-de-obra. O resultado mais claro está no enorme crescimento da periferia de cidades médias e das capitais dos estados mais pobres da federação, onde a atividade rural predomina. A ausência de oportunidades no campo inchou essas cidades nos anos 90.
Essa enorme pressão, aliada à ausência clara de políticas públicas de geração de emprego e renda, resultou em duas correntes: uma parte, dos desempregados com alguma reserva de capital, incorriam em atividades autônomas, ou no empreendedorismo abrindo pequenas empresas, a grande maioria fadada ao insucesso devido à falta de experiência, de apoio técnico e de competitividade no mercado; os demais desempregados, sem renda ou sem experiência, migravam para a informalidade, nos "bicos" e na atividade informal e até ilegal, caso característico do transporte alternativo nas grandes cidades, insignificante até 1995 e em poucos anos representava um problema social insolucionável, o que acabou obrigando muitas cidades a legalizá-los.
Com isso, a qualidade do emprego decaiu significativamente no Brasil nos anos 90 e, principalmente, a expansão do trabalho autônomo e também da informalidade foi gritante. Exceto regiões localizadas, como algumas cidades do Nordeste (beneficiadas pela guerra fiscal, que provocou a transferência de plantas industriais do Sudeste para demais estados) e pólos de grande atividade econômica como Macaé, a geração de empregos foi pífia ao longo de todos os anos de FHC, sempre insuficientes para a oferta de mão-de-obra adicional anual, da ordem de 1,7 milhão de empregos/ano (incluindo informais). Nesse momento, a partir de 2000, houve um processo de retomada industrial com substituição de importações, especialmente em setores de baixa tecnologia, como alimentos e higiene, inclusive com a expansão da participação no mercado de marcas de segunda linha, em função da queda do poder de compra da classe média. Essa queda fica clara na superação dos supermercados populares sobre as grandes redes de hipermercados, que perderam muito espaço por resistirem a oferecer produtos de segunda linha e perderem competitividade devido ao mark-up mais elevado que os supermercados populares, que priorizam preço e dispensam o conforto e luxo nas instalações. Essa retomada propiciou um saldo positivo de empregos nos 3 últimos anos de FHC, que sem eles deixaria um enorme saldo negativo, ainda assim a média mensal de criação de empregos formais no governo passado ficou em 8 mil/mês e menos de 800 mil no total dos 8 anos, contra uma necessidade estimada entre 12 e 14 milhões.
A criação de empregos no Governo Lula
De acordo com a taxa de desocupação, a nova metodologia para acompanhamento do desemprego adotada pelo IBGE a partir de 2002, há uma clara tendência de queda, especialmente com a excelente queda observada no ano de 2004, entre abril/04 e abril/05, por exemplo, a queda foi de mais de 2%, e a expectativa é que a taxa permaneça abaixo dos 10% em 2006, nível que passou todo o segundo semestre de 2005, mesmo com a atividade econômica fraca no período. O grafico abaixo mostra os dados da série histórica acompanhados de uma reta de tendência, que serve para minimizar o efeito da sazonalidade.


Alem da política de fiscalização, que envolve a erradicação do trabalho infantil (redução de 3% em jan/03 para 1,9% em nov/05 de crianças entre 10 e 14 anos ocupadas segundo o IBGE), do trabalho escravo e o combate a irregularidades nas relações trabalhistas, o programa Primeiro Emprego gerou mais de 15 mil empregos para jovens de todo o Brasil, além da Criação dos Consórcios Sociais da Juventude, treinando e encaminhando para o mercado de trabalho milhares de jovens. A faixa entre 18 e 24 anos está com menor dificuldade de encontrar trabalho, mas a taxa de desocupação ainda é muito alta, em torno de 20%, contra cerca de 7% dos adultos. Essas taxas no fim de 2002 estavam em 22% e 9%, respectivamente.
O incentivo à economia solidária, com a implantação de 18 Centros Públicos de Economia Solidária em todo o Brasil, além de pelo menos outros 5 previstos para 2006, importante meio de inclusão social para comunidades de baixa renda.
O Programa Nacional de Qualificação que já ofereceu capacitação para cerca de 370 mil pessoas, a grande maioria vinculados a outros programas sociais e em geral excluídos do mercado de trabalho.
O incentivo a geração de empregos com oferta de microcrédito em condições especiais, através do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado – PNMPO, que está em fase de implementação.
A realização de concursos públicos também é um fator claro de geração de empregos no presente governo, que substituiu a terceirização e o déficit de servidores pela reestruturação da máquina pública, que voltou a ter seu devido respeito institucional.
Essas ações direcionadas, além do crescimento econômico sustentado, possibilitaram a expansão da oferta de empregos na economia. O índice de desemprego ainda é muito alto, mas a pressão social que atingiu seu ápice de 1999 a 2002 já não é mais sentida, inclusive diversos setores de atividades estão com expansão do salário real após vários anos de contínua retração.
Balanço para o futuro
O emprego não deve ser apenas gerado, mas consolidado. A reforma trabalhista deverá conter ações para o estímulo a empregos duradouros, estimulando o vínculo de maior prazo que é essencial para a tranquilidade do trabalhador e de sua família. Estímulos para a redução da informalidade, através de menores encargos trabalhistas para salários baixos, para o primeiro emprego e para a terceira idade e deficientes físicos, bem como a reversão de parte de encargos em capacitação profissional dos trabalhadores, promovendo sempre a máxima vinculação e responsabilidade na relação entre empregador e empregado.
Uma reforma trabalhista justa e com diálogo entre todas as partes só será possível com a continuidade de Lula, que já instituiu o Fórum Nacional do Trabalho, encarregado de discutir a reforma, com entidades de empregados e empregadores. As propostas sairão de acordos naturais entre todas as partes, e não da imposição unilateral, caso típico de governos anteriores, especialmente de FHC, que jamais travou diálogo com os trabalhadores e minimizou o poder das organizações sindicais dos trabalhadores.



















